Jovem baiana salva vida do irmão após doação de medula


Luécia Emanuele Gomes Correia, 28 anos, foi a escolhida entre os familiares para ser a doadora do irmão Foto: Divulgação 

Publicada no R7 BA 


“É um procedimento tão simples”, descreve Luécia Emanuele Gomes Correia, 28 anos, sobre o transplante de medula óssea, processo que pode ser utilizado para curar mais de 100 doenças hematológicas.

Luécia foi a escolhida entre os familiares para ser a doadora do irmão Diego Emanuel Gomes Correia, 31 anos, diagnosticado com linfoma há um ano.

— Entre quatros irmão que somos, três foram compatíveis, só que somente eu fui apta para doar.

Ela conta que o problema do irmão começou como se fosse uma espinha e, após uma biopsia, descobriu que se tratava de câncer. Mas não sabia se era por mutação genética ou vírus. A partir daí, a família, que é da cidade de Abaré, a 580 km de Salvador, percorreu um longo caminho até um diagnóstico mais específico. Os médicos pareciam não ter muito conhecimento sobre a doença, que avançava cada vez mais e, consequentemente, não aplicavam o tratamento correto. A demora no diagnostico fez com que o quadro de Diego ficasse ainda mais grave. Após passar por alguns hospitais, o jovem foi diagnosticado com Linfoma Não-hodgkin na região do maxilar, causado pelo vírus HTLV (Vírus Linfotrópico da Célula Humana).

— Foi descoberto que o único tratamento na fase que ele estava era o transplante de medula óssea.

O transplante alogênico (doação da medula de outra pessoa para o paciente) foi realizado no Hospital Português, em Recife, em 31 de julho deste ano.

Hoje, a técnica mais realizada para o transplante de medula é a aférese de células-tronco. A medula é estimulada a produzir uma grande quantidade de células-tronco através de um medicamento, que joga as células-tronco para o sangue, e depois esse material é recolhido. O coordenador do setor de oncohematologia do Hospital das Clínicas, Marcos Aurélio Salviano, afirma que a fonte é mais utilizada por conta da facilidade, dos riscos e da logística.

No caso dos irmãos, essa também foi a técnica usada para coleta. Luécia relembra que foi "como se tivesse doando sangue, plaqueta".

— Não senti nada, durou apenas quatro horas.

A baiana mora na Argentina e descobriu a doença do irmão durante férias na Bahia, no início do ano. Mesmo depois de superar essa ingrata surpresa da vida, ela ainda se emociona ao falar sobre a experiência de salvar a vida do irmão mais velho.

— A sensação é indescritível, a emoção é muito grande. Me dá vontade de chorar, porque Diego realmente tirou na loteria por ter tido um doador em casa.

A chance de achar um doador compatível não é muito animadora. Em uma família, por exemplo, irmãos com os mesmo pais têm somente 25% de compatibilidade.   

Contra o tempo!

A precisão do diagnostico também foi um problema enfrentado por Paulo Cesar Tavares Santiago, de 53 anos. Ele recorreu a vários médicos em busca de tratamento para as dores que sentia na região do púbis, mas não obtinha resposta para o caso.

— Os diagnósticos eram totalmente contrários, que tinha uma lesão muscular, estiramento. Eu comecei a fazer tratamento, fisioterapia, mas os resultados eram mínimos. Não conseguia ficar curado.

Aparentemente, ninguém sabia que doença Paulo tinha. Ele descobriu um tumor na região após realizar uma ressonância, em 2003. Mas, ainda sem um diagnostico mais preciso, levou cerca de cinco meses para saber que o problema era grave e o quadro tinha evoluído para um mieloma múltiplo (tipo de câncer da medula óssea).

Após a impactante descoberta, Paulo começou a fazer quimioterapia e, em fevereiro de 2006, realizou um transplante autólogo (quando é realizado com a própria medula do paciente) no Hospital Português, em Salvador. Depois do procedimento, ele ficou sob controle rigoroso, porque o organismo fica sem defesa.

— Isso que é o pior, porque muita gente entra em depressão, por que as visitas são mínimas, período de 1 hora.
Depois de quase 10 anos, Paulo venceu o câncer e a doença está em remissão completa (quando desaparece do organismo). Mas, a demora no tratamento custou um preço alto, pois ele ficou com algumas sequelas.

— Eu fiquei com lesão na parte inferior dos membros, porque eu tive um desgaste no sacro. Mas, a vida continua normal.

Paulo e Diego tiveram um final feliz, mas, em muitos casos, os pacientes não encontram doador na família e são obrigados a recorrer aos bancos de doação. Para eles, a única esperança de continuar vivo é encontrar alguém compatível. Enquanto aguardam um ato de solidariedade, em alguns casos, a doença avança descontroladamente dia a dia.

O coordenador do setor de oncohematologia do Hospital das Clínicas enfatiza a importância da doação de medula, devido a complexidade em achar alguém com carga genética compatível com o paciente que aguarda na fila de transplante. Além de todos os problemas que essas pessoas enfrentam, a realidade não é muito reconfortante, pois a chance de encontrar um doador compatível em um banco é de um para 100 mil.

— Tem doenças que só têm chance de cura com o transplante. E quando ele não tem um doador na família, muitas vezes é um desespero, porque ele vai pro banco e no banco são doadores como nós, que somos da comunidade e podemos ser a salvação para alguém. E tem o ato nobre de que essa é uma doação em vida: você assiste o bem que você faz, não faz falta. A medula se regenera muito rápido.

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