Mulheres “fora dos padrões” despem-se de preconceitos e seduzem em ensaio fotográfico


Tamires Bulhosa, de 21 anos, posou nua pela primeira vez

Foto: Aline Valadares

Publicada no R7 BA

Na corrida pela busca do corpo perfeito, muitas mulheres apelam para dietas milagrosas, horas de malhação e tratamentos estéticos que prometem reduzir a gordura localizada, a celulite, a estria, as manchas e as marcas de expressão. E, em alguns casos, o mulherio recorre a intervenções cirúrgicas para ter o nariz da capa de revista, as pernas da modelo que estampa o comercial de biquíni, o sorriso da garota da propaganda de creme dental, a barriga sarada das manequins de passarela, os seis da atriz de novela e o bumbum da cantora eleita mais sexy por alguma publicação.

Mas, por que tantas mulheres fazem qualquer loucura para se encaixar nos padrões midiáticos? Atualmente, algumas brasileiras têm como referencial de beleza as panicats, assistentes de palco que exibem seus dotes e talentos usando apenas um biquininho.

Na contramão pela busca do corpo perfeito e aceitação alheia, a estudante Tamires Bulhosa, de 21 anos, aceitou o desafio de participar do “Projeto Sedutoras”, da fotógrafa Aline Valadares, e posou nua pela primeira vez.  Após um mês avaliando a proposta, a estudante decidiu abandonar o complexo de inferioridade e se despiu dos seus preconceitos, pois confessa que sempre foi gorda e se comparava com as amigas que tinham corpo mais bonito.

— Eu gosto do meu corpo. Eu já pensei em perder [peso], como já perdi por saúde. Tenho estria, tenho pouca celulite, tenho uma cinturinha, ainda tenho uma curva.

A enfermeira Allegra Pitombo, de 26 anos, irmã da fotógrafa, viu o nascimento do projeto e também participou do ensaio sensual. Ela explica que já tinha sido clicada em outras fotos sensuais, que não foram divulgadas, e gostou tanto do resultado final que decidiu posar novamente.

— Essas fotos fazem com que a gente acredite na nossa sensualidade, utilize mais nossa sensualidade, aceite mais o corpo.

O projeto é uma tentativa de Aline Valadares mostrar o outro lado das mulheres “normais”, que têm celulite, estrias, olheira, gordura localizada, e são afrontadas pela cruel ditadura da beleza. Há três anos, Aline deu início ao ensaio sensual. Ela explica que a ideia surgiu após ouvir um CD da banda “3 na Massa”, intitulado “Confraria das Sedutoras”. A inspiração musical foi o ponto de partida para dar vida à produção das fotos.
 Cada modelo representa uma faixa do CD, que possui 11 músicas no total. Antes da sessão de fotos, cada sedutora ouve a música que vai representar para servir de inspiração. As peças íntimas usadas, a música, o cenário complementam o que a fotógrafa enxerga da música. As modelos começam de lingerie e, aos poucos, vão retirando a roupa até ficarem completamente nuas. As mais desinibidas vão além e mostram um pouco mais (seios e glúteos), para despertar a curiosidade masculina. Mas, Aline enfatiza que o ensaio apenas “sugere, não escancara”. As fotos farão parte de uma exposição com catálogos, que virão acompanhados de depoimentos das meninas.

Até o momento cinco mulheres mostraram que são capazes de seduzir, sem o auxílio dos bons toques e retoques do queridinho das artistas e admiradoras do facebook, o photoshop. Nesse projeto, o conceito é mostrar que as modelos podem ser bonitas, mesmo com os defeitos que as inquietam e, por isso, Aline recorre ao photoshop em pouquíssimos casos. O recurso é utilizado, por exemplo, para corrigir a luz. O programa não vai ser usado para camuflar as marcas de estria, celulite, as gordurinhas, a papada, etc. A decisão da fotógrafa deixou a Tamires apreensiva com o resultado do ensaio. Ela ficou ansiosa, pois não sabia como reagiria ao ver as fotos prontas.

— Eu fiquei muito meio que assim... Ai meu Deus, vai mostrar minha estria, vai mostrar minha celulite. Eu tinha meio que vergonha do meu corpo. Até assim em relação a namorado mesmo.

Mas, após o ensaio nu a reação foi positiva, tanto que a relação da jovem com o seu corpo mudou completamente. Ela ficou com a autoestima mais elevada e ainda conseguiu atrair mais a atenção masculina.

— Até gatinho apareceu mais. Eles dizem: nossa, que coragem, você é linda. Eu gostei, foi um incentivo maior.

As fotos também ajudaram a enfermeira a melhorar a relação com o corpo que, como qualquer mulher normal, tem algumas preocupações estéticas.

— Me fez [sic] ficar mais a vontade com o meu corpo. Eu sou meio encucada com algumas coisas. Depois das fotos, eu fiquei mais a vontade com o meu corpo, de usar biquíni e na hora do sexo. Me vi sexy mesmo.  

O objetivo da fotógrafa e das modelos tinha se concretizado: um novo olhar sobre as gordinhas que, quando estão em foco na mídia, são normalmente vistas de maneira cômica, feia, autoestima baixa, encalhada. A fotógrafa admite que, aos poucos, essa ditadura está sendo repensada, com as modelos plus size. Mas a realidade para essas mulheres ainda é muito cruel.

Aline explica que, em países da Europa, as mulheres magras são consideradas as mais bonitas. Elas se encaixam em algum padrão em algum lugar do mundo “e as gordas, não! Em nenhum lugar do mundo são consideradas lindas. Eu nenhum lugar do mundo que eu saiba, por que eu também não conheço todas as culturas do mundo”, brinca.

Para Tamires é possível se sentir atraente e bonito mesmo fora dos padrões impostos pela mídia, mas ela pondera que, “é uma questão emocional, psicológico, da pessoa se amar, ter isso no seu interior. Por que as mulheres não têm essa coisa”.

Mais do que apenas retratar corpos, o “Projeto Sedutoras” tenta fazer com que as mulheres entendam que as imperfeições fazem parte do ser humano.

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