Soteropolitanos comemoram aniversário de 466 anos da capital e lamentam sensação de insegurança


Em Salvador, foram registrados 226 homicídios no período de 1º de janeiro a 28 de fevereiro de 2015 contra as 241 do ano passado Foto: Divulgação

Publicada no R7 BA

A capital baiana, conhecida como “Terra da Alegria”, completa 466 anos neste domingo (29). Mas, será que a cidade tem o que comemorar? No quesito segurança há um impasse. A SSP- BA (Secretaria de Segurança Pública da Bahia) divulgou dados sobre a redução da violência em Salvador, contudo a informação parece não diminuir a sensação de insegurança de baianos como o músico e jornalista Flavio Gomes, de 36 anos, que acha o município desprovido de segurança. Para ele, a situação chega a impactar no direito de ir e vir das pessoas a qualquer hora do dia.

— Eu daria de presente para a cidade uma segurança melhor. Uma segurança que eu conhecia nos anos 90. Uma época que eu saía de ônibus à noite com a maior tranquilidade. Salvador é uma cidade turística, super acolhedora. Seria muito bom termos uma segurança eficiente.  

O sociólogo e professor da Faculdade Social da Bahia, Marcos Soares, justifica o sentimento e questiona a redução apresentada pela secretaria, afirmando que “a nossa mínima capacidade reflexiva racional demonstra, pelos vários fatos, que esses números não refletem a verdade".

Uma parte dos soteropolitanos parece compartilhar a mesma opinião de Soares e a falta de segurança foi apontada por internautas, em enquete realizada pelo R7 BA, como a situação que mais preocupa. Entre as alternativas sobre o principal problema de Salvador, a violência foi lembrada por 59,09% dos internautas.

O descontentamento de alguns soteropolitanos foi demonstrado pouco tempo após a SSP-BA revelar que houve queda de 12,6% no registro de CVLIs (Crimes Violentos Intencionais Letais) na capital, nos meses de janeiro e fevereiro deste ano, em relação ao mesmo período do ano passado. A informação foi divulgada na primeira reunião periódica de 2015 do Comitê Executivo do Pacto pela Vida.

Em Salvador, segundo os dados, foram registrados 226 homicídios no período de 1º de janeiro a 28 de fevereiro de 2015 contra as 241 ocorrências do ano passado, o que representa queda de 6,2%. Na segunda quinzena de fevereiro, o índice de CVLIs caiu 19,2% em Salvador, em relação a 2014.

Soares explica que a divulgação de resultados positivos comprovaria a eficácia das ações do atual gestor e, consequentemente, seria relevante para o sucesso dele nas disputas políticas, pois os governantes estão em constantes confrontos, ainda que fora do período eleitoral.

— Números sociais, números econômicos, por exemplo, como o número da violência, refletem maior ou menor aceitação, maior ou menor eficiência das políticas que estão sendo implantadas pelo governo do Estado, pela Prefeitura.

Atuando na área de segurança, Antônio Lago, 48 anos, afirma que é necessário um reforço na segurança pública de forma geral, pois atualmente os moradores da capital baiana sentem o clima predominante da insegurança. Ele explica que adotou uma tática para fugir dos criminosos mais “carentes”, que ficam furiosos quando não encontram algo de valor nas ações.

— Temos que andar com coisas de valor para dar ao ladrão, se não corremos o risco de sermos mortos. Infelizmente, a segurança privada é a que prevalece, porque a segurança pública está um caos, toda a corporação se sente insegura, existem muitas falhas e brechas na lei.

PERDEU!

O roubo de veículos é outra modalidade de crime que também está tirando o sono dos soteropolitanos. A prática na capital baiana aumentou entre janeiro e fevereiro de 2015, em relação ao mesmo período do ano passado. Durante os dois primeiros meses deste ano, segundo a SSP, 1121 veículos foram roubados. Já ano passado, 967 carros já foram alvos de criminosos entre janeiro e fevereiro, revelando aumento de 154 novos casos.

É difícil não conhecer (ter) um amigo, primo, vizinho, colega de faculdade ou contato do whatsapp que foi vítima da violência que assola a capital baiana. Com passar do tempo, as belezas naturais estão perdendo espaço para esses casos que, cada vez mais, ganham repercussão na mídia.

A diretora da Escola Municipal São Francisco Xavier, Tânia Leal, 59 anos, lida diariamente com os desafios da área de educação, mas reconhece que está perdendo a luta diante de tanta violência.

— Não adianta investir em educação, trabalhar a paz com os alunos quando a violência só cresce.  A cidade está ficando bonita, mas eu queria que as pessoas pudessem ir e vir com tranquilidade e segurança, sem medo.

Para o sociólogo, a situação está ficando cada vez mais crítica e as pessoas parecem tomar consciência desse caos social. O cenário gera desconforto no governo que, por sua vez, é pressionado pelos veículos de comunicação a emitir uma resposta tranquilizadora a sociedade.

— Na medida em que esses números são divulgados, existe uma necessidade do governo se proteger em relação à opinião pública. Até porque você tem processos contínuos de eleição e reeleição.

Mas, a divulgação de balanços parciais e constantes tentativas de atenuar os acentuados contornos da violência, com atualizações de prováveis reduções de índices, parecem ruir quando jovens desaparecem inexplicavelmente em supostas operações de “pseudo policiais”, moradores sinalizam que determinada rua ou área da cidade é mais propícia a roubos, condutores são atacados por criminosos durante o congestionamento, o trabalhador tem o celular, comprado em suaves parcelas, roubado ou a população, cansada de ser vítima, sai às ruas para protestar por mais segurança. "Imagina só, o governo do Estado vir a público assumir o caos social derivado da violência que nós estamos vivendo em Salvador. Jamais o governo vai assumir isso. Isso é notório", esclarece Soares.

Procurada pelo R7 BA, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) afirmou que, através das polícias militar e civil, está trabalhando diuturnamente para reduzir os índices criminais. A reportagem também entrou em contato com a Prefeitura de Salvador, que preferiu não se pronunciar sobre o assunto, alegando que a questão da segurança é de responsabilidade do governo estadual.

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